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imaginário cor de rosa

A história que nossas bonecas não contavam.


"Há uma recusa generalizada a permitir que as crianças saibam que a fonte de tantos insucessos na vida está na nossa própria natureza - na propensão de todos os homens para agir de forma agressiva, antissocial e egoísta. Em vez disso, queremos que nossos filhos acreditem que todos os homens são inerentemente bons. Entretanto, as crianças sabem que elas não são sempre boas; e, com frequência, mesmo quando são, prefeririam não sê-lo. Isso contradiz o que lhes é dito pelos pais e, desse modo, torna a criança um monstro a seus próprios olhos." 

(Bruno Bettelheim, A Psicanálise dos Contos de Fadas)


Séries

 “Os costumes, as modas são muitas vezes utilizados para separar o corpo feminino da transcendência: a chinesa de pés enfaixados mal pode andar; as garras vermelhas da estrela de Hollywood privam-na de suas mãos; os saltos altos, os coletes, as anquinhas, as crinolinas destinavam-se menos a acentuar a linha arqueada do corpo feminino do que a aumentar-lhe a impotência. Amolecido pela gordura, ou ao contrário tão diáfano que qualquer esforço lhe é proibido, paralisado por vestidos incômodos e pelos ritos da boa educação, é então que esse corpo se apresenta ao homem como sua coisa. A maquiagem, as jóias  também  servem  para  a  petrificação  do  corpo  e  do  rosto.” (Segundo Sexo, Simone de Beauvoir)


"A igreja exprime e serve a uma civilização patriarcal na qual é conveniente que a mulher permaneça anexada ao homem. É fazendo-se escrava dócil que ela se torna também uma santa abençoada. Assim, no coração da Idade Média, ergue-se a imagem mais acabada da mulher propícia aos homens: a figura da Virgem Maria cerca-se de glória. É a imagem invertida de Eva, a pecadora; esmaga a serpente sob o pé; é a mediadora da salvação como Eva o foi da danação." (Simone de Beauvoir)


“A muçulmana velada e encerrada em casa é ainda hoje na maior parte das camadas da sociedade uma espécie de escrava. Lembro-me de uma caverna subterrânea numa aldeia troglodita da Tunísia, em que quatro mulheres se achavam acocoradas: a velha esposa, caolha, desdentada, com um rosto horrivelmente desfigurado, cozinhava pastéis num fogareiro em meio a uma fumaceira acre; duas esposas um pouco mais jovens, mas quase igualmente desfiguradas, embalavam crianças nos braços: uma delas amamentava. Sentada à frente de um tear, uma jovem maravilhosamente enfeitada de seda, ouro e prata, como um ídolo, atava fios de lã. Ao deixar esse antro sombrio, reino da imanência, matriz e túmulo, cruzei no corredor, que se abria para a luz com o macho vestido de branco, brilhando de limpeza, sorridente, solar. Voltava do mercado onde estivera a conversar, com outros homens, dos negócios deste mundo. Passaria algumas horas naquele retiro que era seu, no coração do vasto universo a que pertencia, de que não estava separado. Para as velhotas enrugadas, para a jovem esposa votada à mesma rápida decadência, não havia outro universo senão a caverna enfumaçada, de que só saíam à noite, silenciosas e veladas.” (Simone de Beauvoir)


“Com saias, aonde querem que cheguemos?” (Maria Bashkirtseff)


“NORA (meneando a cabeça) Vocês jamais me amaram, apenas lhes era divertido se encantar comigo.

HELMER Nora, o que você está dizendo?

NORA É assim mesmo, Torvald; quando eu estava em casa, papai me expunha as suas ideias, e eu as partilhava. Se acaso pensava diferente, não o dizia, pois ele não teria gostado disso. Chamava-me sua bonequinha e brincava comigo, como eu com as minhas bonecas. Depois vim morar na sua casa.

HELMER Você emprega uma expressão singular para falar do nosso casamento.

NORA (imperturbável) Quero dizer que das mãos de papai passei para as suas. Você arranjou tudo ao seu gosto, gosto que eu partilhava, ou fingia partilhar, não sei ao certo... talvez ambas as coisas, ora uma, ora outra. Olhando para trás, agora, parece-me que vivi aqui como vive a gente pobre, que mal consegue ganhar o seu sustento. Vivi das gracinhas que fazia para você, Torvald; mas era o que lhe convinha. Você e papai cometeram um grande crime contra mim. Se eu de nada sirvo, a culpa é de vocês.”
(Trecho de Casa de Bonecas, Henrik Ibsen)


"Mas há profundas analogias entre a situação das mulheres e a dos negros: umas e outros se emancipam hoje de um mesmo paternalismo e a casta anteriormente dominadora quer mantê-los ‘em seu lugar’, isto é, no lugar que escolheu para eles; em ambos os casos, ela se expande em elogios mais ou menos sinceros às virtudes do ‘bom negro’, de alma inconsciente, infantil e alegre, do negro resignado, da mulher ‘realmente mulher’, isto é, frívola, pueril, irresponsável, submetida ao homem." (Simone de Beauvoir)


Em 1949, Simone de Beauvoir perguntou ao mundo: “Como pode realizar-se um ser humano dentro da condição feminina? Que caminhos lhe são abertos? Quais conduzem a um beco sem saída? Como encontrar a independência no seio da dependência? Que circunstâncias restringem a liberdade da mulher, e quais ela pode superar?” Perguntas que mais de seis décadas depois permanecem abertas.