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imaginário cor de rosa

A história que nossas bonecas não contavam.


"A crença prevalecente nos pais é de que a criança deve ser afastada daquilo que mais a perturba: suas angústias amorfas e inomináveis, suas fantasias caóticas, raivosas e mesmo violentas. Muitos pais acreditam que só a realidade consciente ou imagens agradáveis e otimistas deveriam ser apresentadas à criança - que ela só deveria se expor ao lado agradável das coisas. Mas essa dieta unilateral nutre apenas unilateralmente o espírito, e a vida real não é só sorrisos."  

Bruno Bettelheim, A Psicanálise dos Contos de Fadas​​



O projeto 

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O que queremos das mulheres do futuro: 
que sejam eternas meninas ou que sejam mulheres?

 

Na infância, por meio dos brinquedos, as meninas são introduzidas num universo "cor de rosa", povoado de princesas, cinderelas, príncipes encantados e bonecas de corpos perfeitos. A partir desse sistema de signos, a criança vai construindo a imagem do seu ideal de mulher: magra, alta, rica, ingênua, doce, de uma beleza 'padrão Barbie'.

 

A indústria estimula a fantasia, cercando a criança de brinquedos e produtos que reforçam os estereótipos, estimulando o consumo e a erotização precoce, e fazendo desse um dos negócios mais lucrativos do mundo.

 

Mas o que leva as mães a embarcarem numa ciranda esquizofrênica? Por que entram nessa roda viva, por um lado infantilizando as filhas com roupas de princesas, fadas, festas temáticas caríssimas e mirabolantes e, por outro, empurrando-as precocemente para a vida adulta, com sapatos de salto, sutiãs com enchimento, unhas pintadas, chapinhas e maquiagem? 

 

Esse ideal Barbie, tão difícil de concretizar na vida real, estaria vinculado ao sentimento de frustração, incompetência e deslocamento da mulher contemporânea? E se, em vez de princesas, as meninas fossem preparadas para serem guerreiras? Não é isso hoje o que o mundo espera delas com a competitividade do mercado de trabalho e as exigências da vida contemporânea? De que teriam brincado as míticas amazonas Hipólita e Pentesileia na infância para se tornarem as célebres e valentes rainhas da Antiguidade?

 

E se em vez de brancas, louras, altas e esbeltas, as bonecas representassem mulheres normais, gordas, velhas ou com nariz adunco? E se em vez de passageiras de um destino mágico as crianças fossem estimuladas a serem agentes de mudança em suas vidas? Seriam elas mais bem preparadas para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo em vez de passar a vida inteira lutando contra a genética de seus corpos ou enfrentando as desilusões de um mundo idealizado? Enquanto o mundo ocidental exige da mulher uma postura cada vez mais forte e competitiva, mais mergulhamos as crianças nesse universo fantasioso. 

Num desdobramento do romance O Ser-se, esse trabalho de Júnia Azevedo em parceria com o fotógrafo Diogo Calil, batizado como imaginário cor de rosa, se propõe a investigar essas questões, expondo as bonecas do tipo Barbie a situações dramáticas da vida real. Não se trata de uma proposta de brinquedos para as crianças, mas de uma reflexão sobre a construção do imaginário feminino hoje por meio das bonecas.