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imaginário cor de rosa

A história que nossas bonecas não contavam.





Imaginário Cor de Rosa é um desdobramento do romance O Ser-se, de Júnia Azevedo, publicado pela Editora Circuito, em 2014.


Leia um trecho.



Badaladas ecoam nas paredes frias da pequena cidade de ladeiras. Velhas gordas com as cabeças cobertas por véus de renda preta se debruçam nas janelas. Homens e mulheres num mutismo absoluto arrastam seus sapatos nas calçadas, circundando a praça. Aos poucos, a banda triste se aproxima. Um rapaz quase nu, lanhado, pregado numa cruz é carregado no meio da rua por homens de capas roxas. As velhas, de lenço preto, estão por toda a parte, nas janelas, nas ruas, misturadas à multidão. Tenho medo. O que estão fazendo? Minha mãe me enche de respostas que não consigo entender, mas aceito-as. Por que não tiram o homem jovem dali? O som metálico da matraca estala nos ouvidos e ecoa no silêncio. Sussurros. Cheiro acre de gente e velas. Quero ir embora. Tenho medo da mulher loura, bonita, de manto roxo e a espada cravada no peito.

Devo ter olhado muitas vezes para aquela imagem antes que aquilo tudo fizesse algum sentido e eu pudesse formular pela primeira vez a pergunta.

– Mãe, o que é isso? Quem é essa mulher? Por que tem uma espada fincada no peito?

– É a nossa mãe do céu e a espada simboliza a dor que ela sente pela morte do filho que foi crucificado.

Ela contava sempre a mesma história, que me fascinava, num misto de piedade e medo. Mas o que me fazia repetir a mesma pergunta mil vezes, hoje sei, era entender por que as pessoas não tiravam a espada da mulher. Por que aquela adoração pelo sofrimento alheio? Foi assim que aprendi a temer a Deus. Minha noção de religião foi construída sobre as bases da igreja católica apostólica romana mineira.


Hoje entendo quem teve a ideia de simbolizar assim a dor. É, definitivamente, como sinto meu peito hoje – cravado por uma espada afiada que ninguém tira. Por que não consigo arrancá-la? Exibem a santa com a espada para ensinar a sermos condescendentes com a dor. A santa e eu hoje somos a mesma pessoa. As espadas estão atravessadas no meu tórax e não sei como tirá-las. Não me ensinaram isso. A dor é para ser contemplada com resignação e respeito, aprendi.

Estou no centro do meu quarto, vestida com a mortalha roxa, com as lágrimas petrificadas no rosto e as espadas atravessadas. Doo inteira e não tenho força para mais nada, a não ser recolher-me ao meu imobilismo. Transformei-me na mulher horripilante de cera, com as espadas no peito e estou com medo de mim. Há uma procissão de velhas no quarto agora. Ouço seus passos arrastados, ouço as ladainhas, mas não enxergo ninguém. Não há rostos. Novamente não há rostos, mas sinto a presença das carpideiras chorando. (Expiando os meus ou os seus próprios pecados?) As beatas andam em círculo em volta de mim, da mulher-dor, da Senhora das Dores. Por que essas loucas não arrancam minhas espadas e tratam das minhas feridas? Que prazer há nelas em adorar meu sofrimento? Hoje entendo a imagem assustadora da santa com a adaga de prata cravada no peito e sua expressão resignada. Ela estava ali, sim, era para nos rogar uma praga: “Espere que um dia você também terá as suas espadas.”

Me lembrei da menina passeando com a mãe no Jardim Botânico. Ao avistar de longe a noiva posando para fotos, saiu correndo fascinada, gritando: “Mamãe, a Cinderela! Mamãe, a Cinderela!”. Mas a noiva, tão ocupada com a sua própria fantasia, não teve nem um olhar para a menina. A criança ainda não sabe, mas a mulher atravessada pelas espadas é o futuro da Cinderela. Mas isso ninguém conta.


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